capítulo dois
"Rita, agora não é mesmo o momento. O nosso tempo já passou..."
Rafael sabia que era tempo de escutar o seu coração e, por muito que gostasse de Rita, não era amor que sentia. Talvez estivesse na altura de proteger o coração a todo o custo. Podia não amar mas também não iria sofrer por amor. Era melhor assim já que a sua vida amorosa vivera em constante sobressalto nos últimos meses.
"Ao menos, deixa-me dar-te o meu número novo. A festa de aniversário da Patrícia é já amanhã à noite. Vens?"
"Sim, vou. Ela convidou-me há um mês. Não faltava por nada."
"Então vemo-nos por lá?"
"Sim, claro."
Ele precisava de tudo menos isto. Já sabia que ao aceitar o convite para a festa tinha grandes hipóteses de reencontrar Rita. Não era o que queria.
A noite da festa chegou e Rafael deu por si a divertir-se menos
do que esperava. Estava farto dos jogos e das mentiras, de apregoar aos sete
ventos que estava bem e a superar tudo o que se tinha passado.
A verdade é que não estava. Longe disso. Sentia-se cansado de
tudo e nem sabia porque tinha vindo. Preferia estar a sós com as suas emoções,
o que lhe era impossível aqui, cortesia das pessoas e da música que o
incomodava.Viu Rita ao longe mas não lhe quis falar. Decidiu deixar a festa, sem avisar. Era melhor assim e foi o que
fez.
Rafael ansiava desesperadamente pelo seu espaço, por respirar
novamente e nenhuma outra decisão lhe surgira no espírito. Saiu apressadamente, despediu-se de Patrícia, a aniversariante, cruzando-se com imensa gente que nem sequer lhe dedicava um segundo olhar.
Estava rodeado de estranhos e não via os seus amigos em lado algum. Sentiu-se só naquele momento. Abandonou a casa sem vontade de regressar, desceu a longa escadaria,
atravessou o salão e saiu rumo à tranquilidade do jardim, ansiando pela calma
que sabia que em breve encontraria.
Estava lá fora, no jardim, quando a viu. Viu-a sentada num dos
balouços, sozinha e indiferente a tudo o que se passava ao seu redor. Rafael
nunca vira o seu rosto antes. Já não reconhecia a sensação. Estava fascinado
por ela, o seu coração parecia acordar de um sono profundo e ele via-se
invadido de uma alegria fora do comum para mais quando nunca a vira em toda a
sua vida. Porém, há muito tempo que não se sentia assim.
Receou magoar-se, sofrer por uma nova paixão estava fora de
hipótese. Decidiu ir-se embora. Para casa, para qualquer lugar que não fosse
este. Virou as costas quando o que mais queria era ir até lá e conhecê-la. Deu
três passos apressados até que ouviu aquela voz pela primeira vez.
"Rafael... Espera."


